A MEMÓRIA GRUDA NO CORPO

Por Felipe Chaimovich (1996)

As técnicas caseiras de preservação da memória são um domínio guardado pelas mulheres. As tradições  manuais e orais mantêm em uso as práticas esquecidas pela história oficial: a vestimenta, as memórias familiares, as semelhanças de parentesco. Esse conjunto de saberes precisos alimenta o trabalho de Cris Bierrenbach.

A manualidade do produto fotográfico constitui uma linha constante na pesquisa da artista. O registro mecânico e asséptico da fotografia é constantemente interrompido e desviado, recebendo a interferência direta do trabalho de Bierrenbach. Duas linhas têm marcado sua produção: a transformação da fotografia pronta em matéria-prima para novos produtos manuais (como seus mosaicos de pequenas fotos ou negativos); e o resgate de técnicas fotográficas arcaicas, onde a mão do fotógrafo confunde-se à do químico, e o artista deve agir a cada passo da confecção do produto.

A costura vem adicionar mais uma das técnicas caseiras ao tratamento da imagem fotográfica. Bierrenbach sempre costurou, desde roupas de boneca até peças próprias. A costura revela tecnicamente a herança familiar, sendo um testemunho de história. Assim, as sobras de trabalhos feitos sob encomenda para editoriais de moda foram reprocessadas e investidas de memória. O trabalho impessoal transformou-se na matéria-prima de um diálogo de família. Bierrenbach modelou, costurou e deu acabamento a uma série de oito peças de roupa feitas com os pequenos negativos, tomando seu próprio corpo como modelo.

A moda como veículo da memória envolve agora o espectador, através do jogo com os espelhos onde Bierrenbach reinventa os editoriais de moda que originaram as partículas de seu trabalho. Não é mais somente o seu corpo que modela as peças costuradas: modelos profissionais vestem a memória caseira, denunciando as heranças familiares por trás dor corpos pasteurizados. Cada especrador se vê dentro das modelos, para depois reencontrar as roupas que se viu vestindo.

A distância impessoal da fotografia é um abrigo negado po Bierrenbach a seu espectador. Ao costurar as fotos, é toda uma tradição familiar personalizada que sustenta os gestos precisos da geografia das roupas. As técnicas corporais do corte e da modelagem revestem-nos de memória: não da memória objetiva e precisa, mas da memória que nos une a uma história afetiva.

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