ARTE NUA E CRUA

Por Miguel Chaia (2005)

Na arte contemporânea, as fotografias de Cris Bierrenbach são porradas visuais que atordoam o olhar. Nelas o corpo surpreende e colocamos em dúvida o sentido do termo humano. Cada imagem é um enigma a ser decifrado, imprimindo nova direção ao gozo estético propiciado historicamente pela fotografia.

Os trabalhos da artista registram as condições de sobrevivência do corpo humano e são portadores de uma proposição pessoal que poderia ser expressa na sentença “Eu me coloco no mundo!”, percebida no tom provocativo de suas imagens e, principalmente, nos auto-retratos. Esta visão crítica do mundo, embasando a subjetividade artística, desvela a coragem da fotógrafa em se expor abertamente e gera uma poética visual centrada na luminosidade convivendo com a escuridão, equivalente à paradoxal co-existência do positivo com o negativo.

Tais características essenciais permitem assinalar, de imediato, que as fotos de Cris expressam o esforço para deslocar o corpo humano do controle exercido pela sociedade para o domínio sensível da própria artista. Esta questão elucida-se na obra “Exibição-50940568”, realizada na dimensão e na forma de um outdoor, fotografando o próprio corpo encaixotado nas contingências da opressão social. No título deste trabalho está presente a referência ao número de telefone para contatos comerciais publicitários.

Na mesma direção situa-se a série “Retrato íntimo”, cujas imagens mostram objetos cirúrgicos e de uso cotidiano introduzidos no órgão genital da artista, num jogo visual estabelecido entre formas biológicas e artefatos invasores. O interesse de Cris direciona-se para uma intensa visceralidade, como demonstra a série “Crisbibank – preservando futuras gerações”, com fotos de preservativos contendo o esperma dos parceiros da artista, dispostos em pequenos cubos de gelo. Esta série deixa vislumbrar a afetividade feminina no gesto de recolher, acolher e conservar o líquido seminal resguardando ainda a memória do ato primordial da reprodução humana. Entretanto, a ambigüidade perpassa a obra de Cris e esta série também traz uma fina ironia crítica ao controle genético que coloca em risco as futuras gerações.

Percorrer o conjunto da obra da artista permite concluir que sua preocupação não se reduz às questões de gênero e tampouco recortam realidades pontuais, mas retrata, isto sim, o ser humano entendido como criatura que deve sobreviver frente a obstáculos do mundo. Para tanto, Cris faz o oferecimento de si, expondo-se plenamente num ritual estético, centrado na fisicalidade do corpo, retomando um dos temas específicos da fotografia, a pessoa. Ela se dispõe ao enfrentamento de olhares preocupada que está com a reprodução da vida, como fica elucidado ao se considerar o tratamento fotográfico dado ao órgão genital feminino invisível mas fundamental na série “Retrato íntimo”, no foco direcionado ao sêmen masculino escondido nas transparências do plástico e do gelo e nas noivas em estado de suspensão e na espera de um acontecimento futuro. As fotos de Cris não se apresentam de imediato, torna-se necessário o esforço intelectual e a força do instinto do observador para completar o significado das representações.

Pode-se, assim, dizer que o estranhamento é a sensação que emerge imediatamente ao se defrontar com o trabalho da artista, mesmo porque suas fotografias não são eróticas, embora transpirem uma delicada sensualidade, nem são realistas, mas encenações nascidas para criticar e recriar o real. Por isso, as fotografias possuem um tom surreal, transmitem sensações de um mundo onírico e misterioso.

Toda esta qualidade visual obtida não advém apenas das questões temáticas e filosóficas que ela se coloca, mas também decorre da sistemática pesquisa das técnicas fotográficas, que reforça a expressividade da sua obra. Os trabalhos constituem-se em comentários sobre as possibilidades da fotografia e resultam do aprendizado e controle das técnicas artesanais do século XIX, dos recursos analógicos do século passado e do digital do tempo presente. Cris, no seu diálogo constante com a história da fotografia, repassa o processo fotográfico na sua totalidade, para então, subvertê-lo incorporando-o de maneira pessoal e livremente.

É assim que o tema da origem não está apenas na série “Crisbibank”, mas é reforçado pelo uso freqüente que a artista faz da técnica do daguerreótipo, a gênese da fotografia, que é retomada nas séries “Auto-retrato (bonecas)” e no tríptico “Sem nome (cabeças)”. Paradoxalmente, em Cris tudo é fotografia, mas é mais do que fotografia; trata do corpo, mas vai além da individualidade humana; oferece ao observador o espelho, mas nele inclui a opacidade; e o negativo, torna-se positivo – e vice-versa.

Ao incomodar o olhar e subverter a técnica fotográfica, Cris vem formatando uma estética do estranhamento, capaz de levantar dúvidas sobre o demasiadamente humano. Suas fotografias permitem, então, indagar se estamos frente a imagens do pré-humano ou do pós-humano. Estes trabalhos engendram um hiato na percepção do observador que, fragilizado pelo impacto das imagens, tentará compreender e sintetizar o mundo num fio de cabelo, nas linhas de vida traçadas nas palmas das mãos, nos rostos vermelhos que parecem gritar, nos braços ou nas cabeças retratadas. Esta estética do estranhamento nasce do esforço de se colocar criticamente no mundo para obter uma visualidade que expresse poeticamente a complexidade da vida e da arte.

As imagens perturbadoras criadas por Cris Bierrenbach movem-se num mundo próprio, envoltas num silêncio arrasador, suspensas num ambiente de ar rarefeito e fornecendo apenas pistas de um denso e inatingível real. E o estranhamento transmitido pelas obras de Cris ganha contundência porque na sua linguagem adequam-se, plenamente, as questões existenciais e os recursos técnicos.

 

Miguel Chaia é professor e pesquisador do Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP.

 

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