CORPO ESTRANHO

Por Helouise Costa (2005)

O trabalho de Cris Bierrenbach coloca questões totalmente  diversas. Eu vou tratar  aqui de uma série intitulada Retrato íntimo – fotografia  transparente,  realizada no início desse ano e exposta em março na Galeria Vermelho em São Paulo.

Essa série é constituida de cinco imagens: radiografias de uma mesma parte do corpo da artista,  que abrange do estômago até  o início  dos joelhos. São imagens muito próximas das radiografias usadas nos exames médicos, tanto  pela escala, quanto pela tomada. 

Essas radiografias não nos surpreenderiam enquanto imagem, se não fosse o ato inusitado que registram: a introdução de objetos perfurantes no interior da vagina. Uma seringa, um fórcepes, uma tesoura, uma faca e um garfo surgem como “corpo estranho”, no sentido médico do termo, que indica “substância ou objeto que se encontra de modo indevido em uma órgão, orifício ou conduto do corpo, quer acidentalmente,  quer espontaneamente” .

E talvez seja justamente  por essa espontaneidade, ou seja, pelo fato de se constituir numa ação voluntária, o motivo que faz com que a penetração registrada nessas imagens nos pareça tão chocante. São imagens que exercem um estranho poder sobre o olhar do observador, a um só tempo de repulsa e atração voyerística,  em função de uma certa obscenidade que lhes é inerente.

A meu ver, as radiografias da Cris Bierrenbach lidam com a obscenidade em dois níveis:

no seu sentido etmológico, ou seja, encarnam aquilo que está fora da cena, aquilo que deve permanecer nos bastidores, que não deve ser mostrado sob o risco de transgredir  os limites do decoro, do socialmente  aceito – daí , em grande medida a atração  e repulsa que exercem; e segundo por responder a um dos significados menos utilizados da palavra obsceno que se remete a algo que choca pela crueldade – um crime obsceno. Se socialmente a crueldade causa repulsa, ao mesmo tempo instiga a curiosidade.

Nesse trabalho a artista  ritualiza o ato da penetração – que originariamente  é associado ao ato sexual, à fecundação e ao prazer – como um ato de crueldade contra sua condição de mulher. Na cultura ocidental, o sexo como violência contra mulher é um tipo de representação  recorrente, muito presente  na história da arte.

Aqui é a artista assume a iniciativa da violação do próprio corpo, subvertendo  a expectativa da passividade feminina frente ao sexo, associada ao ato da penetração. Ela é ao mesmo tempo vítima  e algoz, artista e modelo, sujeito e objeto da representação. A violência que ela impinge  a sim mesma, denota claramente a posse do próprio corpo, como a dizer: aqui eu posso fazer o que eu quiser. O corpo se transforma num lugar de afirmação da sua liberdade.

Mas é importante ressaltar que  a obscenidade não se encontra nas imagens, mas sim no ato que as originou. Essas radiografias instigam a imaginação do observador que tenta reconstituir mentalmente o momento em que se realizaram os registros. A nudez da artista, a preparação dos objetos, a introdução e a pose diante do operador do aparelho de raio-x, num ambiente hospitalar,  conformam uma ação que fere o que é aceito e esperado de uma mulher em relação ao próprio corpo.

Tradicionalmente o corpo da mulher, especialmente a sua genitália, é considerado como o lugar do mistério e da escuridão. A fotografia pornográfica atua justamente  aí, na devassa dessa intimidade e na espetacularização  do corpo feminino, que dessa forma se transforma em objeto de deleite visual para o observador masculino.

O que Cris Bierrenbach realiza no seu retrato íntimo é provocar esse voyerismo ao extremo através de uma tecnologia que devassa a interioridade do corpo feminino. Só que, por um ato voluntário de auto-flagelação, ela destrói o prazer que esse observador poderia tern numa fantasina de posse carnal da mulher ali representada.

A simbologia dos objetos oferece  também outras possibilidades de leitura desses trabalhos.

Considerações finais

A associação da radiografia com as estratégias do grotesco e do obsceno confere aos trabalhos de Benedetta Bonichi e Cris Bierrenbach uma contundência crítica  que expõe, em grande medida, o mal-estar da nossa condição contemporânea.

Parafraseando Edmond Couchot, eu diria que elas souberam “transformar as certezas da ciência em incertezas da sensibilidade” para nos oferecer a imagem de um corpo em vias de dissolução e o retrato de um sujeito que não tem mais a possibilidade de definir uma identidade  estável  frente às contradições do mundo.

 

 

 

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