FIRED

 

Por  Eder Chiodetto (2013)

Uniformizar implica, necessariamente, em deformar. Essa deformação do estado original de algo atua no sentido de criar um padrão. Quando aplicado a profissionais, a uniformização visa priorizar uma função social em detrimento da identidade individual. A pessoa deixa de ser uma referência única, para encarnar um coletivo. Logo, um uniforme deflagra a mutação de um protótipo em um arquétipo.

Assim como as ordas de torcedores de futebol, que no ambiente de um estádio, subitamente encarnam uma potente identidade coletiva, Cris Bierrenbach envereda, com seus arquétipos femininos da série Fired, pelo falso apaziguamento da ideia de pertencer a um grupo social bem demarcado. O eu plural.

Segundo o psicanalista alemão Erich Fromm, em sua obra A arte de amar: “a sociedade contemporânea prega esse ideal de igualdade não individualizada porque necessita de átomos humanos, cada um idêntico a outro, pra fazê-los funcionar em massa, suavemente, sem atrito. Todos obedecendo aos mesmos comandos, embora todos estejam convencidos de que estão seguindo seus próprios desejos. Do mesmo modo que a moderna produção em massa requer a padronização das mercadorias, o processo social também requer a padronização do homem, e sua padronização é chamada de ‘igualdade'(*)”. É contra esse homem-massa, que funciona dentro da lógica das mercadorias, que a artista irá investir.

Como é recorrente em sua produção, Bierrenbach aponta para a falibilidade desses ambiciosos projetos de felicidade de consenso, como já havia sido apontado, por exemplo, na série Noivas – aluguel e venda (2004). Ao adquirir o arquétipo do coletivo, algo parece não funcionar. Há uma falta, um vazio, um personagem que não se encaixa. É preciso destruí-lo na tentiva de resgatar a singularidade perdida.

A artista se vê, então, diante da representação desse eu coletivo. Pausa a respiração. Faz a mira. O gestual de empunhar uma câmera e fotografar está em total sincronia com o ato de segurar uma arma e atirar. Fired sobrepõe esses dois atentados: o primeiro que identifica e aprisiona um padrão robotizado, e o segundo que o elimina.

 

(*) Fromm, Erich. The Art of Loving, Harper & Row, New York, NY, 1956 (p.15)

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