LINHAS

Por Margot Pavan (1997)

Colocar na superfície velada de um filme o fluxo do tempo. Colocar uma paisagem em conserva.  Fazer um registro daquilo que se foi. Do imenso mar das cotidianas  imagens fotojornalísticas saem paisagens áridas, eminentemente geográficas, sobre a pele.

À distância aérea, daquela altura na qual é possível se jogar de pára-quedas, vê-se linhas escuras e escassas sobre um fundo branco, sangrando as bordas.
Rios riscados por um compasso na areia fina do deserto são fotografias/retratos da perda cotidiana, quase imperceptível, que o tempo opera em nossas vidas.  Os fios de cabelo que se vão diariamente levam consigo um foco que se perdeu, uma história que se foi.  Os registros possíveis são estas imagens.
Cada imagem tem um foco tão difícil que quase não identificamos o que seja. Adentramos a realidade por um ângulo que não estamos acostumados e
este estranhamento permite a reflexão sobre o que  passa desapercebido, sobre o que não podemos encontrar palavras exatas para descrever.  Só a pele que se vai em fios ou que é escavada nas rugas ao longo das décadas pode contar – marcas únicas.

Novamente à distância aérea, a pele reencontra os limites de sua expressão. As verdadeiras linhas sempre estiveram lá, como umainfinidade de possíveis.  Mas as que se aprofundam são aquelas que nossa trajetória particular escolheu congelar.

O foco exacerbado do primeiro ensaio exibe uma perda minúscula, imperceptível e cotidiana.   No segundo, as rugas de 94  anos exibem a longa passagem dos anos, o acúmulo de histórias e emoções. Mas o terceiro ensaio não fala mais sobre as perdas, (embora a pele também se renove).   Livre do foco do aparelho fotográfico , um análogo da observação racional, o terceiro grupo de imagens apela para o contato físico.   Carimbada sobre os filmes velados, a pele revela uma terceira espécie de paisagem, aérea ainda mas desta vez mais remetente à altura dos satélites. Lá estão os mapas, rios, lagos, montanhas, desertos.

Muitas linhas .  Lá estão desenhadas todas as rugas que só o acúmulo dos anos poderá escavar.  Lá estão todos os dias infinitos que ainda podem
ser vividos, com seus prazeres e dores, ganhos e perdas.

Escritas na pele estão todas as palavras que não puderem ser ditas e que apenas o tempo poderá exibir . Ao abandonar a máquina e encostar o filme
a sua própria pele, Bierrenbach antecipa a passagem do tempo, torna visível o mapa de infinitos caminhos possíveis que a linha da vida poderá
percorrer.  Dá voz ao que não pode ser dito.

 

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