O FEMININO E OS ESPELHOS

Por Eder Chiodetto (2004)

“A luta se resolve no poema, com o triunfo da imagem que abraça os contrários sem aniquilá-los” (Octávio Paz)

Pesquisadora obsessiva de antigas e modernas técnicas de fotografia, Cris Bierrenbach pauta sua obra na inquietação formal e, muitas vezes, numa abordagem incisiva sobre a representação da figura do feminino.

Sua original e propalada série de daguerreótipos, remontam a invenção da fotografia, em 1839, inspirada em Louis-Jacques Mandé Daguerre (1789-1851), pintor e físico francês, pesquisador pioneiro que conseguiu fixar imagens sobre uma fina camada de prata polida, aplicada sobre uma placa de cobre e sensibilizada em vapor de iodo. Passados 165 anos da invenção da fotografia Bierrenbach recupera tal técnica para focar discussões pós-modernas como a impermanência, a imposição das imagens, a dificuldade de comunicação. Tratam-se de imagens delicadas, prosaicas, onde se divisa o entorno da cabeça, o rosto de uma boneca, além de um alfabeto particular de gestos de mãos e braços que dependendo do ponto de vista e da incidência da luz oscilam entre o negativo e positivo, a prata e o preto. Se estabelece aqui um jogo dialógico no qual o observador pode se ver refletido dentro da imagem, literalmente invadindo o corpo da artista.

A apropriação de um corpo por outro pode se dar de forma consentida ou não, pelo olhar voyeur, pelo instinto sexual, pela dor e pelo prazer. Na série “Retratos Íntimos (Fotografia Transparente)” a técnica utilizada é a radiografia, imagem obtida com a passagem de raios x ou raios gama através do corpo. Aqui Bierrenbach se vale da metalinguagem da técnica de obtenção da imagem para alcançar um resultado estarrecedor. As radiografias mostram diferentes objetos cortantes e pontiagudos que foram introduzidos na vagina da artista. Ao se posicionar diante delas é como se houvesse um campo magnético pelo qual o olhar é bruscamente capturado. A invasão do corpo pelos raios luminosos, o recorrente jogo monocromático do preto-e-branco servem de esteio para mais um tênue e insolúvel limite: a sedução se dá pela atração ou pela repulsa (aqui justapostas em alta voltagem)? Amor e dor: impossível evitar a rima. Bierrenbach estimula os sentidos e aguça as lutas internas que cabem no espaço do seu corpo, de qualquer corpo, esse entreposto de prazer, dor e solidão.

O arquétipo da noiva vestida para o ritual do casamento, imagem símbolo do universo feminino, aparece na série “Aluguel e Venda”. Novamente Bierrenbach se utiliza de imagens aparentemente cândidas e sedutoras para introduzir, aos poucos, uma narrativa que engendra uma crítica corrosiva tanto ao uso do corpo da mulher na mídia quanto às imagens cristalizadas e esvaziadas de sentido pelo tempo ou pelo excesso de circulação.

Diante do espelho a artista realiza uma série de auto-retratos com vestidos e poses diferentes. A luz que ilumina a cena parte de um flash acoplado à sua cabeça. Tal experimento destrói a identidade ao eliminar o rosto. Bierrenbach deixa de ser ela própria para ser qualquer uma e todas ao mesmo tempo. Resta um símbolo desgastado, rudimentos do sonho feminino, expostos numa vitrine para aluguel ou venda.

A visibilidade da chapa polida do daguerreótipo, da radiografia, do espelho e da vitrine funcionam como anteparos para os jogos semânticos da artista que subvertem a linguagem fotográfica para questionar mitologias de forma contundente e precisa, mas sempre sedutora. O feminino, sim o feminino.   (Eder Chiodetto)

 

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