O REVERSO DO ESPAÇO

Por Marta Bogéa (2010)

Um véu, leve, como tela suspensa, constrói as paredes fluidas de um labirinto de tijolos. Move-se delicadamente na travessia do corpo ao percorrer seus corredores. Mas, paradoxalmente carrega a imagem de um opaco e rígido material – tijolos cerâmicos furados – popularmente nomeados “tijolo baiano” presente em toda construção popular. Material cotidiano em geral revestido, feito para ter outra pele sobre sua matéria. Aqui desnudo e transformado.

Orange Gardens é um dos labirintos feito com “tijolos” por Cris Bierrenbach. Há outro, anterior a ele, vídeo de 2002/2006, intitulado Periferia.1. No vídeo o corpo se depara com um ir e vir que simula as indecisões típicas do movimento labiríntico. Diferente do percurso linear e fluido proposto na transparência dos véus de Orange Gardens, Periferia.1 encurrala nosso olhar no embate da busca pela saída.

Um terceiro trabalho, Periferia.2 de 2006, usa a mesma matriz material, mais imagem que matéria para subverter a natureza dos espaços. Aqui, como colagem os regrados e estáveis tijolos de construção civil se vêem tremulantes, fugidios como uma chama, movediço na irregularidade de seus eixos. Aqui não há labirinto, há vibração.

A partir da mesma matriz matérica, transmutando-a, Bierrenbach constrói duplos de espaços. Não são parte de uma mesma obra, nem considerados articulados, mas ao usarem a mesma matéria de referência inicial aproximam-se. Vale lembrar, a matéria aqui tratada não é a mídia da obra mas a matéria-metáforica do mundo cotidiano reinvestida de paradoxos que a transformam como numa operação alquímica.

Os espaços feitos a partir dos tijolos por Cris Bierrenbach guardam bons paradoxos: corpo opaco transformado em campo translúcido; paredes rígidas transformadas em leves tecidos; espaço corriqueiro transformado em campo excepcional. E, na tríade de investidas a partir da ocupação com os populares “tijolos baianos”, as obras apresentam ainda outras curiosas variáveis: transforma campos contínuos em espaços fragmentários, território rígido em matéria fluida, ordenação em vibração.

Esse jogo entre pele e espaço, entre o limite e o que é transponível, também está presente na instalação Através do Vidro de Olhar, ocorrida em 2004 na Base 7. Ali um rosto de mulher achatada no vidro se contrapõe ao campo sonoro no qual várias mulheres se apresentam. Um só rosto, em desconforto, contrapondo-se a essas várias mulheres buscando se distinguir. Carrega o mais singular para o desconcerto do mais recorrente.

A implantação do trabalho, o lugar onde está projetado, confirma essa potência: o vídeo está projetado na pele do espaço que divide interior de exterior – a porta de vidro de entrada para o espaço expositivo. O som ocorre na soleira de acesso. E assim, ao invés de ocupar o interior da sala, como era previsto, ocupa o campo limítrofe, dentro e fora ao mesmo tempo.

Cris Bierrenbach dobra o espaço e revela seu reverso. O faz não apenas ao tratar o espaço como tema mas sobretudo na maneira de instalar suas obras.

É assim, por exemplo, que inverte a fuga principal do acesso à sala expositiva da Galeria Vermelho. Ao instalar Exibição 5094-0568, outdoor de um corpo “encaixotado” (sedutor e comprimido a um só tempo) na parede oposta para quem entra na sala, inverte a frontalidade do olhar. Leva o dispositivo de fachada para “as costas” do lugar.

Cria um espelho onde não há. O jogo de multiplicação e de repetição ou duplicação de imagens é uma de suas habilidades, não à toa uma das obras mais conhecidas da artista, seus daguerreótipos, guardam esse susto e segredo, refletem nossa imagem sobre o vazio da outra ou às vezes sobre sua projeção.

Jogo de reflexos e transformação. Onde nomeadamente há um Auto-Retrato (como título da obra) vemos uma multiplicidade de bonecas às quais se sobrepõem nossas imagens refletidas ao olhá-las.

Onde o título aponta a alteridade (Anti-Positivo ou Sem Nome) o rosto que se apresenta ao olhar é o da artista.

Jogo especular que leva a pensar no diálogo entre Borges e Casares:

“Do fundo remoto do corredor, espreitava-nos o espelho. Descobrimos (a altas horas da noite essa descoberta é inevitável) que os espelho têm algo de monstruoso. Então Bioy Casares recordou que um dos heresiarcas de Uqbar havia declarado que os espelhos e a cópula eram abomináveis, porque multiplicam o número dos homens.”(1)

Multiplica, reflete, e no caso das obras de Bierrenbach nas quais um outro te espreita de dentro do espelho, aprisiona a imagem no trânsito entre dois e transforma o que seria único, singular, na experiência de muitos.

Traz é claro o assombro do O Homem da Multidão(2) , levada a uma inquietante vertigem onde a intimidade de um se vê amalgamada e exposta no âmbito público junto ao desejo de “não estar só” e ao mesmo tempo reconhecer-se como qualquer um.

Nesse sentido nos revela a vertigem a que nos expõe, todos, nesse tempo no qual a privacidade e o público são tratados em um mesmo âmbito. Crise que se revela na crise de espaço, no âmbito da Arquitetura e Urbanismo ao esgarçar fronteiras antes muito bem delimitadas.

Cris Bierrenbach nos aprisiona ao partir de um cotidiano canhestro para então, e ao mesmo tempo, devolver-nos o encanto do mundo por enfrentar seu avesso.

Um trabalho recente, Vácuo-Moçambique (2009), uma projeção de slides apresenta fotos de casas e da paisagem entre essas casas. Ora imagem fixa, que revela a fachada da casa, ora uma sequência que sugere movimento e dissolve a paisagem no entorno dessas mesmas casas. Confunde-nos ao confundi-las, apresenta um espaço continuo que sugere estar em um único lugar, quando na verdade as casas não guardam, na sua situação real, um campo de visibilidade partilhado.

São casas abandonadas, em desuso porque guardam a memória das pessoas que aí viviam, pessoas que foram mortas ou realocadas por causa da guerra(3). Mantendo esse campo fantasmal como vizinhança, estas casas são a memória material de algo que não se deve esquecer.

São tão distintas e tão iguais essas surpreendentes casas, pois são, de certo modo, a mesma casa, representadas em tantas outras. Ecoam o mesmo “som”, guardam um mesmo segredo, que Bierrenbach desvela ao reconhecê-las enquanto paisagem dissolvida e redefinida entre tempos históricos e de percepção.

Nos devolve ao labirinto feito de véus transparentes, e ao espelho que revela a quem os espreita à partir da sua sobreposição com a imagem de outro rosto.

Cris Bierrenbach configura assim um poético território a um só tempo duro e doce, singular e coletivo, íntimo e público. E o faz ocupando os espaços, reinvestindo-os ou reinventando-os sempre a partir de uma inesperada transgressão.

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(1) Tlön, Uqbar, Orbis Tertius. Em: Jorge Luis Borges, Ficções. Lisboa: Editorial Teorema, 1998. P 11,12.

(2) O homem da multidão, Edgar Allan Poe, em:

http://www.gargantadaserpente.com/coral/contos/apoe_homem.shtml

(3) História revelada em conversa com a artista em dezembro de 2010.

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