ORANGE GARDENS

Por Silvia Paes Barreto (Fundação Joaquim Nabuco / 2010)

Em algum momento, ao longo de uma promissora carreira como fotojornalista, Cris Bierrenbach se viu instada a ir além dos limites da prática convencional em fotografia, associando a atuação como repórter a investigações autorais neste campo.

A inquietação a levou, por um lado, a pesquisar as técnicas antigas dos processos de sensibilização e revelação fotográfica, o que resultou, dentre outras, na premiada série Daguerreótipo, de 2004, e por outro, a enveredar por temas íntimos, pessoais, porém consoantes a aspectos da cultura quanto aos constrangimentos a que estão submetidos os corpos, em especial, o feminino.

Sua poética é reconhecida por reter, na representação do corpo, imagens nada apaziguadoras, bastante incisivas, que falam de um mal-estar do feminino frente a padrões sócio-culturais instituídos. Nestas imagens, subjetividade, memória e identidade são acessadas a partir de fragmentos de corpos, do seu ou de outros.

Hoje, para concretizar suas ideias, a artista acolhe múltiplos meios. Além da fotografia e dos vídeos, as performances demarcam uma modulação em sua obra, antes restrita a investigações do corpo em imagens. Nestas, a artista experimenta o próprio corpo em ação e propõe instâncias intersubjetivas que preparam o campo para o aparecimento das instalações.

A primeira montagem de Orange Gardens, projeto premiado pelo Centro Brasileiro Britânico em 2010, reproduzia o desenho do jardim labiríntico do Hampton Court Palace, na Inglaterra. No mesmo ano, a obra foi recriada para adequar-se à Galeria Massangana, da Fundação Joaquim Nabuco, em Recife. Agora é ao corpo do espectador que a artista se direciona, pois a este lança o apelo a experimentar uma vivência peculiar do espaço reconfigurado pela obra.

Em Orange Gardens, simulacros de parede, criados a partir de impressão digital da imagem fotográfica sobre tecido, formam um labirinto. O engajamento do espectador em explorar os percursos sugeridos é crucial à percepção da obra. No ambiente lúdico que a obra instaura, a depender da incidência da luz sobre os painéis, o deslocamento permite experimentar a alternância entre opacidade e transparência, entre as sensações de volume e leveza, num incessante jogo para os sentidos.

Dado que é da natureza das instalações que estas atuem de modo a mediar a relação do corpo com o ambiente onde estão inseridas, o espaço deixa de ser elemento neutro, mero suporte, para ser parte da substância de que são feitas. E sendo única a conformação que a cada vez se apresenta, e efêmera, posto que perdura por curto período no tempo, a beleza que emana desta singularidade engrandece o artifício humano que lhe dá forma.


 

 


 

 

 

 

 

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