VÁCUO (Moçambique)

Por Jorge Menna Barreto (2010)

Não buscaríamos origens,

mesmo perdidas ou rasuradas,

mas pegaríamos as coisas onde

elas crescem,

pelo meio: rachar as coisas, rachar

as palavras..

Gilles Deleuze

 

Um projetor com 79 slides em seu carretel é o único objeto da sala proposta por Cris Bierrenbach. O visitante recém chegado por uma das duas entradas busca o seu lugar. É ao lado da máquina, onde o controle foi disponibilizado para que dite o fluxo do percurso, projetando o seu conteúdo. Parte dele são 10 casas moçambicanas desertadas no período de guerras que assolaram o país durante mais de 30 anos, e que curiosamente assim permanecem. As casas são retratadas de frente, uma por slide, mediando imensos céus de azuis e brancos, terra e vegetação.

Ao acionar o projetor, inicia-se um trajeto. Em seguida a cada uma das casas, há uma seqüência de imagens manipuladas que as desconstroem e espicham horizontalmente, dando uma sensação, pela distorção, de movimento em aceleração crescente. O alongamento se dá até que gera-se uma abstração e encontra-se a próxima casa, não em seu estado formado, mas também estirada. Estrada.

São múltiplos os processos de esvaziamento e perda endereçados neste projeto. Há aqueles dos interiores das casas, escavados pela guerra. Ou das pessoas que foram extraídas e engolidas pela ditadura do seu tempo, em medo e fuga. Há o próprio procedimento de desmanche da artista, que esgarça e arrasta o que captura, para em seguida remontar. E há aquele curto hiato do salto sem projeção entre um slide e outro, marcado pelo som do movimento da máquina, que torna a sala, câmara escura; o projetor, olho; o vazio, vácuo.

É este o espaço material habitado por este texto.

 

 

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