VITRINE VIRTUAL

Por Ricardo Oliveros (2004)

“Não sou mais ou menos igual a uma ou todas as mulheres, sou eu com meu mal-humor, qualidades, simpática, amizade, solidariedade, carência, etc e isso me basta”

Frases como esta estão espalhadas por diversos sites de encontro e comunidades virtuais. Além da descrição, que depende da criatividade de cada um ou aquilo que se quer chamar atenção de si mesmo, as fotos atestam a “veracidade” do que se tentou descrever em palavras.

A internet propicia uma outra forma de se relacionar com nossa auto-imagem. Se antes o espelho era a ponte para a certificação mais próxima daquilo que representamos para o outro, a avanço da tecnologia permite a re-elaboração de quem somos ou gostaríamos de ser.

Esta é a primeira impressão que salta a vista no trabalho “Através do Vidro de Olhar” de Cris Bierrenbach. Uma imagem de um rosto distorcido é projetada na porta de entrada da Base7, acompanhada de frases descritivas de diversos personagens virtuais.

A tecnologia, seja no mundo real ou não, é responsável pela modificação não somente do corpo, através de próteses, cirurgias, mas da própria percepção do corpo. Estar aqui, não tem o mesmo significado de outrora. Podemos estar simultaneamente em vários lugares, seja pelo celular ou pelo computador. Estamos imersos numa simulação de tempo real, ao mesmo tempo em que vamos nos tornando simulacros de nós mesmos.

Se no capitalismo o corpo era uma força de produção, nestes tempos de superprodução o corpo tem valor de mercado por sua capacidade de consumir e ser consumido. O consumo acontece através da hiper valorização da imagem bela conquistada, não somente por hábitos saudáveis, como também pelos avanços da medicina e da farmacêutica. Passamos do corpo-produção para corpo-produto.

É dentro desta lógica que os sites de encontro, fonte de inspiração para este trabalho, se inserem. Nos colocamos como mercadorias expostas em vitrines virtuais. Vale recordar que virtual deixou de ter uma posição antagônica em relação ao real, é mais uma hiper realidade, que tem um pé na realidade e outro na imaginação, com a diferença que esta imaginação é dotada de materialidade, ou como a ficção científica já havia adiantado, de uma realidade virtual.

Sobre esta realidade que versa este projeto. A vídeo instalação de Cris Bierrenbach, construída pela imagem de um rosto comprimido contra o vidro da porta, propõe uma ocupação virtual do cubo branco, denominação utilizada para o espaço supostamente neutro das instituições de arte, na definição do teórico americano Brian O’Doherty. “No Interior do Cubo Branco: a Ideologia do Espaço da Arte”.

Aqui não há especificamente a negação do espaço e sim uma ampliação do seu entendimento. Claro, que causa uma certa estranheza dar de cara com uma projeção na porta e o espaço interno estar desocupado. Mas é na ausência de uma ocupação interna que residem a força e o impacto da obra.

Um vídeo é visto a partir de uma tridimensionalidade que se dá no olhar do espectador. Na gravação de um vídeo para se ter a sensação de profundidade utiliza-se o recurso da objetiva e diferentes campos de luz para que a imagem não fique chapada, assim definem-se os diferentes planos, muito próximos das leis da perspectiva na pintura da Renascença.

Pelo conteúdo da proposta, os significados seriam outros caso este fosse projetado em uma tela ou parede. Por estar inserido em uma passagem, no caso, a porta, tem-se a sensação de que aquele rosto quer sair de dentro do próprio espaço, algo como um jogo de espelhos, como analisa Gilles Deleuze, em “A Lógica dos Sentidos”:

De tanto deslizar, passar-se-á para o outro lado, uma vez que o outro lado não é senão o sentido inverso. E se não há nada para ver por trás da cortina é porque todo o visível, ou antes, toda a ciência possível, está ao longo da cortina, que basta seguir o mais longe, estreita e superficialmente possível para inverter seu lado direito, para fazer com que a direita se torne esquerda e inversamente”

O sentido de “Através do Vidro de Olhar” está na superfície que ele ocupa. Na obra, esta película vira poética, como uma analogia de uma pele urbana, animada que fala diretamente ao transeunte ocupado da metrópole. Insere-se na mesma categoria dos outdoors e painéis eletrônicos que invadem a cidade, em cada esquina, a cada virar do olhar. Ao mesmo tempo, diferencia-se destes meios, pois enquanto neles há um apelo claro de consumo, de necessidades e desejos criados, aqui há o seu reverso, que se dá pela crítica desta imagem que nos faz distorcidos e distantes de nós mesmos.

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